Quintal bio Jorge Ferreira

Produzir sementes tradicionais, colhendo para semear

No passado dia 6 de maio, a Comissão Europeia aprovou a nova lei das sementes, numa versão menos gravosa para a conservação das variedades tradicionais do que a proposta que esteve em discussão pública.

Ainda assim, há alguns entraves à livre produção e utilização destas variedades quando não inscritas nos catálogos oficiais (europeu e nacionais), entraves que interessava retirar, o que ainda pode ser feito, visto que a lei ainda vai ao Parlamento europeu para aprovação definitiva.

Para ajudar à conservação destas variedades (tradicionais ou regionais), que não estão patenteadas, cada um de nós que tiver um pouco de terra (ou até um vaso na varanda), pode dar o seu contributo. Para isso temos de produzir a semente e colhê-la para depois semear.

A produção de sementes deve ser conduzida de modo a garantir que estas dão origem a plantas bem desenvolvidas e sãs, e tenham elevada pureza varietal. Esta última é o parâmetro que mede a bondade genética da semente. Uma semente com elevada pureza varietal é aquela que reproduz com fidelidade a estrutura genética característica da variedade a que pertence.



A manutenção dessa pureza depende em primeiro lugar do sistema de reprodução da espécie, a saber:

-    reprodução por semente, sobretudo de autopolinização e consequentemente autofecundação, com limitada variabilidade e baixo risco de cruzamento;
-    reprodução por semente, sobretudo de polinização cruzada e consequentemente fecundação cruzada, com muita variabilidade e alto risco de cruzamento ;
-    reprodução por via vegetativa (bolbos, tubérculos, enxertia, estaca), com uma mistura de clones (cada clone tem origem num indivíduo da variedade, com alguma variabilidade genética), em que cada clone é constituído por plantas geneticamente iguais.

Nos casos de reprodução por semente, os dois tipos de fecundação obrigam a diferentes distâncias de isolamento relativamente a outras variedades da mesma espécie de modo a evitar cruzamentos indesejados.

Quadro 1 – Tipo de polinização e distância de isolamento a outras variedades da mesma espécie, para garantir pureza varietal


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Notas:
1.Polinização: C - cruzada; AP - autopolinizada
2.I – insetos; V - vento

Com base nestes dados, concluímos que podemos produzir sementes sem grande risco de se cruzarem, mais facilmente numas espécies do que noutras. Por exemplo, podemos, numa mesma horta, produzir semente de mais do que uma variedade de tomate, alface ou ervilha, e só uma variedade de melão, abóbora ou pepino.

 

Jorge Ferreira
Eng. agrónomo, consultor e formador em Agricultura Biológica
Agro-sanus

EsmeraldAzul, para uma vida saudável, consciente e sustentável.


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