Pouca água ou água em excesso na agricultura

Sustentabilidade Grande parte da água doce que nós utilizamos vai para a agricultura. A pergunta é, deve-se usar pouca água ou usá-la em excesso?
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A água doce utilizável nas atividades humanas é um recurso escasso à escala nacional e mundial, e a agricultura é a atividade que mais gasta, com um consumo muito acima do industrial e doméstico.

Na região mediterrânica, sujeita a períodos de seca frequentes e com a época mais quente sem chuva suficiente para as necessidades hídricas das culturas, o consumo de água na agricultura é estimado em cerca de 70 a 80% do consumo total.

As culturas mais exigentes e que são cultivadas no verão, como é o caso do milho, podem gastar mais de 5 milhões de litros de água por cada hectare de cultivo, ou seja mais de 500 litros por cada metro quadrado.

Isto para o período em que a cultura está na terra, 4 a 5 meses conforme a variedade.

O clima mediterrânico caracteriza-se pela concentração dos períodos de chuva e com picos de precipitação diários muito altos, como tem acontecido recentemente em Portugal.

Se numa cidade como Lisboa, uma chuva de 20mm em poucas horas já provoca cheias, num terreno agrícola essa mesma quantidade de água (20 litros/m2), deve ficar retida no solo sem provocar sequer escorrimentos superficiais.

Isto se o solo estiver em boas condições, o que infelizmente em Portugal é raro acontecer.

A maior parte dos solos agrícolas cultivados tem falta de matéria orgânica, excesso de mobilizações (em especial com a fresa que destrói a estrutura do solo quando usada com frequência), excesso de compactação e, consequentemente, má estrutura e má drenagem.

Nestes casos, e enquanto não se atingem melhores níveis de fertilidade e de drenagem interna do solo, há que fazer obras para o escoamento da água superficial, nomeadamente valas ou charcas.

Que ao mesmo tempo também possam servir como reservatório de água para rega a usar mais tarde, ou pelo menos que contribuam para recarregar os aquíferos subterrâneos.

Para conseguir cultivar no inverno nesses terrenos é bom fazer "camas” altas (raised beds), escorrendo a água pelos espaços entre os camalhões.

Para conseguir uma melhor proteção contra o excesso de chuva em culturas de ar livre como as couves, pode também recorrer-se à manta térmica, que não precisa de suporte (ao contrário da estufa), reduz o impacto da chuva e aumenta a temperatura 2 a 3ºC.

É claro que a situação ideal é ter-mos um solo muito fértil, não só pela grande reserva de nutrientes que contenha, mas também pela sua resiliência.

Um solo fértil, rico em matéria orgânica e com uma boa e estável estrutura, adapta-se melhor às condições adversas, neste caso a níveis de precipitação elevados em curtos períodos de tempo.

Desta forma é feito um uso mais eficiente da água e previnem-se situações mais gravosas, como as inundações, quer em meio rural e agrícola, quer em meio urbano.