Quintal bio Jorge Ferreira

Pesticidas - para quando a sua retirada total da agricultura, da alimentação e da água que bebemos?

O processo de reavaliação toxicológica dos pesticidas de uso agrícola, que tem vindo a ser feito pela Comissão Europeia, levou à eliminação de alguns pesticidas que foram muito usados na agricultura convencional nas últimas décadas, principalmente devido à sua toxicidade aguda, aquela que provoca envenenamentos imediatos ou de curto prazo, seja por via oral seja por via dermal. Mas a toxicidade crónica, aquela que vai atuando aos poucos até ter graves consequências, muitas vezes já sem possibilidade de cura, tem ficado para o fim, o que deixa ainda em uso algumas substâncias ativas perigosas.

Os dois piores efeitos crónicos na saúde humana são a desregulação hormonal (ou endócrina) e o cancro.
De entre as substâncias ativas em avaliação toxicológica, 66 pesticidas (66 substâncias ativas a que correspondem muitos mais produtos comerciais), foram classificados pela Comissão Europeia dentro da categoria 1 (evidência clara de ação desreguladora endócrina - DE) e 50 na categoria 2 (provável DE). Alguns foram já proibidos na Europa e outros ainda são autorizados (Quadro 1).


Quadro 1 – Substâncias ativas de pesticidas agrícolas, definidas dentro das Categorias 1 e 2 de disruptores endócrinos pela Comissão Europeia, ainda em uso na Europa.

Note-se que de entre os ainda autorizados, estão alguns pesticidas muito usados na agricultura nacional como deltametrina (Decis), mancozebe,  manebe, metirame e tirame). O tirame, por exemplo, é o mais usado na desinfeção de sementes, sendo estas muitas vezes manuseadas com as mãos sem qualquer proteção. A estas substâncias ativas corresponde um maior número de produtos comerciais, que se podem identificar pelo respetivo rótulo e que nos escusamos de identificar aqui.
Estão aqui vários tipos de pesticidas – inseticidas, fungicidas e herbicidas, estes últimos considerados muitas vezes de baixa toxicidade, até pelos serviços oficiais.

São muito usados na fruticultura e na viticultura e até em hortícolas, sendo que alguns são autorizados em produção integrada e um deles (piretrinas) em agricultura biológica. Neste caso é de categoria 2 e é seguro para o consumidor pois é de rápida degradação, muito mais que a dos piretróides como a deltametrina cuja molécula foi produzida para se tornar mais tóxica e mais persistente do que a piretrina natural. Em Portugal, as piretrinas não estão sequer homologadas para culturas, mas apenas para nebulização de armazéns.

Referimos ainda o herbicida glifosato, o mais usado em Portugal e no mundo, não só na agricultura, mas também em áreas urbanas e nas bermas das estradas. Um estudo de 2005, evidencia efeitos secundários em células da placenta das mulheres e na síntese de hormonas sexuais e um estudo mais recente, de 2012, realizado durante dois anos em ratos de laboratório bebendo água contaminada com glifosato, em concentrações semelhantes às que ocorrem em águas de zonas agrícolas tratadas com este herbicida, evidencia efeitos cancerígenos.

Jorge Ferreira
Eng. agrónomo, consultor e formador em Agricultura Biológica
Agro-Sanus

EsmeraldAzul – para uma vida saudável, consciente e sustentável


1 comentários

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em resposta a
nuno_soares
1 de Maio de 2017 às 20:08
pesticidas agrotoxicos na nossa alimentação .
assinem a petiçao ;)
http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT82494