Os herbicidas e as hormonas

Bem Estar Descubra quais os efeitos dos herbicidas nos problemas hormonais, saiba como esses químicos causam danos à saúde.
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Os herbicidas são os pesticidas (ou produtos fitofarmacêuticos, o termo oficial em Portugal para dar uma melhor imagem a estes venenos) que matam as ervas e outras plantas de maior porte.

Só nos últimos anos têm vindo a conhecer-se melhor os efeitos negativos no ambiente e na saúde humana e animal destes produtos, em especial a sua toxicidade crónica incluindo os efeitos hormonais.

É que os dados da toxicidade em geral necessários à homologação de cada produto são sempre fornecidos pela empresa que o produz e as agências oficiais (EFSA na União Europeia; DGAV em Portugal) não os divulgam publicamente.

Os estudos feitos por cientistas independentes têm vindo a mostrar, entre outros, efeitos disruptores endócrinos em diversos pesticidas, incluindo alguns herbicidas.

É o caso do glifosato, o mais usado em Portugal, por todo o país, no campo e na cidade, desde as calçadas de Lisboa às bermas dos caminhos das ilhas dos Açores e da Madeira.

Destacamos aqui a utilização em meio urbano, que é infelizmente o meio de combate às ervas mais disseminado em Portugal e pago pelas autarquias.

Os pesticidas em geral e os herbicidas em particular foram concebidos para terem uma ação tóxica, pelo que uma vez dispersos no ambiente poderão atingir e causar efeitos indesejados em organismos não-alvo.

Até à publicação da Lei n.º 26/2013, de 11 de Abril, que transpõe a Diretiva 2009/128/CE, havia um vazio legal relativamente à aplicação de herbicidas em meio urbano.

Com a publicação da nova legislação clarifica-se que "Em zonas urbanas e de lazer só devem ser utilizados produtos fitofarmacêuticos quando não existam outras alternativas viáveis, nomeadamente meios de combate mecânicos e biológicos.” (n.º 3 do artigo 32º), o que esperamos venha a traduzir-se numa alteração significativa da prática atual de uso generalizados dos herbicidas por parte das autarquias, pois na realidade os riscos destes produtos são inúmeros.

O glifosato é o herbicida mais vendido em Portugal, cerca de 1400 toneladas por ano.

O glifosato é a substância ativa que surge em cerca de 60 apresentações com diversos nomes comerciais.

O nome comercial mais conhecido é o ROUNDUP, da multinacional norte-americana MONSANTO, ou não fosse o herbicida mais vendido em todo o mundo.

O glifosato surge ainda, por exemplo, com o nome comercial de SPASOR (também fabricado pela mesma empresa), e que é o principal de uso urbano.

O seu fabricante alega que é inócuo para insetos auxiliares, minhocas, abelhas e humanos e completa e rapidamente biodegradável na água e no solo.

Esse herbicida propagandeia um "certificado de compatibilidade ambiental” emitido pelo responsável pela comercialização em Portugal, a Manuquimica (possui Autorização de Venda n.º 0044), ou seja, esse certificado é emitido pelos próprios interessados na venda!

Ao contrário do que diz essa declaração, a degradação do glifosato ocorre entre os 30 a 90 dias, período relevante para a manifestação de efeitos indesejáveis pela contaminação ambiental.

A presença de glifosato e do seu principal metabólito de degradação, o AMPA (ácido aminometilfosfônico) tem sido detectada nas águas de superfície e nas subterrâneas, nos países onde essas análises são feitas.

Em França, por exemplo, o Instituto francês do Ambiente (IFEN) já em 2003 e 2004 menciona no seu relatório que o glifosato e o AMPA estão entre os principais poluentes das águas de superfície.

Para toda a França, em 2003 e 2004 o AMPA foi detectado em 59% e em 55% das amostras, e o glifosato em 33% e 35%, respetivamente.

Estes resultados estiveram na base de uma resolução do governo francês no sentido de diminuir a dose máxima autorizada de glifosato na agricultura para 2.160 gramas de substância ativa por hectare por ano, ou seja 0,216 grama/m2.

Contrariando a alegada inocuidade divulgada pelas empresas fabricantes e distribuidoras, existem vários estudos, dos quais apresentamos uma breve compilação de resultados relativamente aos impactos na saúde por parte do glifosato e de herbicidas à base do glifosato.

Com estas novas evidências científicas espera-se que a sua utilização venha a ser revista.

Na verdade, há uma preocupação crescente com os efeitos de herbicidas à base de glifosato, dado que este herbicida e suas formulações comerciais têm sido apontados como responsáveis por inúmeros impactos na saúde, mesmo em doses muito baixas, 500 a 4000 vezes mais baixas que no uso agrícola, a saber:

  • Malformações congénitas, tais como: microcefalia, anencefalia (ausência de cérebro) e malformações cranianas;
  • Alteração significativa da progressão da puberdade pela redução da produção de testosterona (hormona sexual masculina) e alteração da morfologia dos testículos, sugestivas de um efeito desregulador endócrino potente;
  • Efeitos carcinogênicos, nomeadamente de cancro na pele;
  • Efeitos tóxicos em vários tipos de células humanas, como do cordão umbilical, embrionárias e da placenta, incluindo morte celular, mesmo em doses 500 a 1000 vezes mais baixas que no uso agrícola.

De referir ainda que, apesar do fabricante alegar que o glifosato é um ingrediente ativo não tóxico para as células humanas, mas tóxico para as células vegetais quando misturado com componentes inertes, num estudo independente sobre a toxicidade dos produtos comerciais, as 4 formulações de herbicida à base de glifosato, contendo adjuvantes, causaram morte celular em todos os tipos de células usadas no estudo (células humanas da placenta, rim embrionário e de neonato).

Foram ainda estudados os efeitos de diluições de glifosato, AMPA  e POEA (um dos adjuvantes conhecidos das formulações de Roundup) e misturas aos pares dos mesmos. Em todas as circunstâncias houve efeitos nocivos.

O glifosato isolado foi inclusive 30% mais potente do que associado a adjuvantes e surpreendentemente atuou muito rapidamente em concentrações 500-1000 vezes mais baixas que no uso agrícola.

Este trabalho confirmou claramente que os adjuvantes das formulações de Roundup não são inertes.

E será que se justifica aplicar tanto herbicida?

Na maior parte dos casos as ervas devem permanecer em crescimento enquanto estiverem verdes, pois estão a consumir CO2 e produzir oxigénio.

São muito importantes para segurar a terra evitando a erosão do solo, seja em taludes à beira de estradas e caminhos, seja num terreno agrícola.

Na horta as ervas desde que não em excesso são compatíveis com as culturas hortícolas, e algumas delas são até comestíveis, como o dente-de-leão, a morgue-branca e o saramago.

Em muitas culturas como o brócolis, a presença de algumas ervas não prejudica a produção.

Vamos então evitar o herbicida e valorizar as ervas e informar autarcas e agricultores para o perigo que correm e que nos pode atingir a todos.