Eu consciente Carla Martins

Mindfulness na dor

Todos nós sentimos dor física. A dor aguda apresenta-se normalmente associada a situações fisiológicas como por exemplo intervenção cirúrgica ou lesão. A dor crónica poderá igualmente apresentar uma causa física, mas normalmente está associada a componentes emocionais e cognitivas como medo, raiva e dor emocional. Independentemente da natureza da dor, quando ela está presente queremos que passe imediatamente, pelo desconforto que nos coloca e impedimento de funcionarmos no nosso equilíbrio.

Quando sentimos dor a última coisa que queremos é olhar para ela porque a impressão que temos é que a dor fica mais intensa e forte. No entanto, isto é uma percepção ilusória porque quando olhamos para a dor estamos a permitir-nos experienciar na totalidade o que está presente.

Este é o ponto chave no mindfulness:

1. Desenvolver a capacidade de observar a experiência do momento presente, independentemente de ser agradável ou desagradável.

2. Aprende a investigar e observar para a dor presente no corpo, sem qualquer julgamento, rejeição, ou crítica mental, as quais são reações que exacerbam a dor física e causa ansiedade e depressão.

3. Identificar, observar e aceitar as emoções presentes associadas à dor.

4. Viver no momento presente com aceitação, porque o momento presente é tudo o que temos. O passado não existe, já foi e é apenas uma memória. O futuro é uma projeção ainda não chegou e muito provavelmente não será como imaginamos.


As intervenções terapêuticas baseadas no Mindfulness como o Programa de Mindfulness para Redução de Stress e Desenvolvimento Emocional (Mindfulness-Based Stress Reduction – MBSR) têm demonstrado benefícios muito positivos na gestão da dor aguda e crónica (por exemplo atrite reumatóide, fibromialgia) após a participação no programa de mindfulness. Estes benefícios refletem melhorias significativamente positivas em termos de tolerância perante a dor, aceitação da dor, redução da percepção da dor, sintomas de ansiedade e depressão associadas à dor e aumento da qualidade de vida quando comparados com outras intervenções terapêuticas como programas cognitivos-comportamentais para redução de stress ou massagem terapêutica. Estes benefícios são mantidos meses após a participação neste programa demonstrando que os benefícios se estendem para lá do período de intervenção terapêutica.

Numa perspectiva neurológica observou-se que estes resultados a nível físico e psicológico poderão refletir alterações a nível neuronal: alterações em áreas corticais associadas ao processamento da dor (Grant et al., 2010), à avaliação anticipatória da dor (Brown & Jones, 2010), assim como atividade reduzida em várias regiões corticais associadas à reação emocional (Grant et al., 2011). Estes resultados refletem a maior capacidade dos praticantes de meditação (mindfulness) em observar a dor sensorial presente e redução da reação emocional (por exemplo aversão, ansiedade, depressão, raiva) perante a dor que são ferramentas desenvolvidas nestes programas de mindfulness.

Algumas estratégias de mindfulness para lidar com a dor de uma forma construtiva:

1. Mindfulness de Exploração Corporal – é uma prática formal de mindfulness onde aprende a trazer a atenção e consciência para as diferentes áreas do corpo. Nas áreas onde a dor surgir em vez de reagir ou querer mudar a sensação presente – apenas observe, com aceitação. Observe o fluir de sensações que vão surgindo e desaparecendo.
 
2. Mindfulness na Respiração – é uma prática formal de mindfulness que pode ser usada em qualquer momento do dia. Sente-se numa postura confortável e convide a sua atenção para a respiração. Note o movimento do ar a entrar no corpo e do ar a sair do corpo. Sempre que surgirem pensamentos sobre a dor ou dor no corpo apenas note a presença do pensamento/sensação no corpo, aceite sem criticar, julgar ou rejeitar a experiência, e volte ao momento presente, à respiração.

É esta capacidade de estar com a dor, com uma atitude interna de aceitação que lhe permite transformar a experiência da dor e melhorar sintomas emocionais associados à dor.



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