Guatemala

Sustentabilidade País da América Central localizado ao sul do México, um lugar encantador.
Você vai ler:

O que cabe em 20 e poucos dias de intervalo do mundo real?

Foi com esta pergunta na cabeça que partimos rumo à Guatemala, país do qual pouco ou nada conhecíamos.

De mochila às costas, sem qualquer reserva ou roteiro pré-definido.

Mas ainda assim já com demasiados planos feitos, ou não incluíssem eles, infelizmente, voo de regresso com data marcada.

Acasos vários deram-nos a oportunidade de, 3 dias após a nossa chegada, visitarmos 3 comunidades.

Queqchi’s (um dos mais de 20 povos indígenas Maias da Guatemala).

Uma experiência que nos iria fazer perceber que o nosso tempo era bem mais largo do que pensávamos.

Não obstante ficarem a entre 3 e 6 km de distância de Semuc Champey, um autêntico monumento natural.

E uma das principais atrações turísticas do país, estas comunidades vivem num quase completo isolamento do resto da sociedade.

Em parte imposto pela própria natureza circundante (alta montanha de floresta tropical).

Mas sobretudo pelo esquecimento a que a própria sociedade lhes votou.

Afinal de contas, dezenas de pessoas chegam a Semuc todos os dias.

Mas para nossa incredulidade, fomos os primeiros estrangeiros alguma vez a fazer essa meia dúzia de km adicionais.

Estávamos completamente impreparados para encontrar a realidade com que nos deparamos, um mundo todo ele feito de ausências:

De casas com as mais básicas condições de habitabilidade, de electricidade, de água potável.

Sendo (a única água a que têm acesso é a da chuva, a qual armazenam e...consomem). de quaisquer cuidados médicos...

Num outro plano, não menos preocupante e que em muito explica o quadro anterior.

De acesso direto aos mercados de venda os poucos produtos agrícolas que produzem.

E, por essa razão, de acesso a um rendimento minimamente condigno.

Mas no meio de todo este cenário difícil de descrever.

Aquilo que mais nos marcou acabou por ser o impacto que a nossa simples visita teve em todos aqueles com que nos cruzamos.

Pese não anunciada, os locais fizeram questão de nos mostrar as suas comunidades, as suas casas, as impossíveis condições de vida.

Fizeram questão de partilhar connosco os seus problemas, as suas enormes dificuldades.

Mas também a sua mesa, invariavelmente muito modesta.

Limitamo-nos a estar ali, falar com eles, escutar e simpatizar com os seus problemas.

Atos simples que se transformaram num balão de oxigénio que alimentou a ideia de.

Afinal, poderem não estar por completo entregues apenas a si próprios.

Como referimos, estávamos completamente impreparados para a realidade que encontramos.

E, por isso mesmo, também para agir de qualquer modo sobre ela.

Limitamo-nos, com a nossa presença, a ser um mero paliativo.

Ainda assim um paliativo que, para nossa surpresa, deu àquelas comunidades algo fundamental para que possam lutar por algo mais: esperança.

Para além do sempre enriquecedor reality check.

Esta experiência teve o condão de positivamente nos aprisionar àquele local de beleza extrema e às suas gentes.

Temos a fortuna de não partilhar os problemas que enfrentam nos mais singelos actos do seu quotidiano.

Mas, depois desse dia, é impossível não partilharmos a responsabilidade de ajudar à sua resolução.

Até porque conhecemos o impacto que terá nas suas vidas qualquer pouco que possamos fazer, por muito pouco que seja.

Mais cientes de tudo o quanto poderia caber neste nosso intervalo, cruzamo-nos com o projeto Hamacas y Pescado.

Uma biblioteca com livros e jogos lúdicos construída numa pequena e remota vila piscatória na costa do pacífico (Chiquistepeque de seu nome).

Colocada ao serviço das crianças locais.

Durante a última semana no país, deixamo-nos nas mãos do inexcedível Don Elfego (líder do projecto) e da sua família.

 E a vila deixou as suas crianças nas nossas.

A força deste projecto reside sobretudo na sua simplicidade e flexibilidade.

Nesta vila bastante pobre, a larga maioria das famílias tem o seu rendimento dependente da pesca e/ou pequena agricultura.

Os rendimentos são necessariamente curtos, tudo o que vem à rede é peixe.

Pelo que desde tenra idade as crianças ocupam quase todos os seus tempos livres da escola (e não raramente mesmo os não livres) a auxiliar os pais no seu trabalho.

Mesmo quando livres, não sobra ninguém que as acompanhe nas suas brincadeiras, ou espaços adequados a elas.

Situação que o projeto Hamaca y Pescado se propõe alterar.

Mantendo um espaço lúdico disponível para as crianças sempre que existem voluntários disponíveis para as acompanhar.

Auxiliando-as nos seus trabalhos de casa, sendo os seus parceiros de brincadeira ou simplesmente partilhando com elas a nossa atenção e o nosso afecto.

Ao nosso paraíso encontrado não faltava nenhum dos predicados idealizados.

Acrescentando ainda as adoráveis tartarugas bebés (por ali chamadas parlanas).

Em época de abandonar os ovos e iniciar a sua caminhada em direcção ao mar alto.

Mas o que tornou esta experiência particularmente gratificante foi percebermos.

A cada sorriso de pura felicidade, a cada aperto daqueles pequeninos braços que nos enchem a alma.

Que a nossa presença permitiu às crianças de Chiquistepeque momentos em que puderam voltar simplesmente a sê-lo.

Infelizmente tão raros nas suas vidas.