Folhas velhas, legumes novos

Sustentabilidade Conheça a técnica de cultivo a partir de folhas mortas, uma prática natural, barata e livre de produtos químicos.
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Conheça a técnica de cultivo a partir de folhas mortas, uma prática natural, barata e livre de produtos químicos.

O cultivo com a cobertura do solo é uma prática tradicional que caiu em desuso na segunda metade do século XX, à medida que a mecanização agrícola e a aplicação de adubos e herbicidas de síntese química, se foi impondo numa agricultura dita "moderna”.

Em algumas culturas em que a cobertura do solo é mais necessária, como o caso do morango, a palha (em inglês "straw”), foi substituída pelo plástico, deixando a designação inglesa de morango ("strawberry”, ou "baga da palha”) de fazer sentido nessa nova prática de produção, atualmente seguida por quase todos os produtores deste pequeno fruto.

O empalhamento tradicionalmente feito com palha de trigo ou outros cereais, pode também ser feito com outros resíduos vegetais, como as folhas das árvores caducifólias, neste período de inverno, com a tripla vantagem de:

  • Proteger o solo da erosão provocada pela chuva (erosão hídrica), evitando o impacto das gotas e a escorrência superficial;
  • Evitar a germinação e o crescimento das ervas infestantes, pela camada sombreadora;
  • Alimentar o solo e a cultura que lá estiver, pela decomposição e mineralização parcial desta folha.

Então, sendo assim, as folhas velhas deixam de ser morte e passam a ser vida nova, deixam de ser lixo e passam a ser fertilizante.

Um exemplo, com folhas da olaia do jardim, uma árvore leguminosa e fixadora de azoto, que assim permite transferir este elemento do ar do solo para a planta (passando da forma elementar e gasosa à forma de amónio, já assimilável e nutritiva), e do jardim para a horta, onde as alfaces e outras "folhas” mais precisam desse nutriente.

"Empalhamento” do solo na horta com folhas de faia, com 3 variedades tradicionais de alface cultivadas ao ar livre em pleno Inverno".

Temos pois aqui um empalhamento ou "mulch” nutritivo que, em conjunto com a fertilidade do próprio solo, e sem qualquer aplicação de adubo ou até de composto, permite obter boas e bonitas alfaces.

Falta provar e aprovar o sabor e textura, de que daremos notícia após a colheita, em simultâneo com a revelação dos respectivos nomes varietais, algumas delas do Catálogo da associação "Colher para Semear”, cujas sementes não podem ser vendidas mas apenas cultivadas pelos associados.

Para conseguirmos um "mulch” ainda mais nutritivo, podemos utilizar o corte da relva do jardim, em geral mais rico em azoto do que as folhas que caem das árvores.

Isso justifica-se no caso de solos menos férteis e/ou de culturas mais exigentes em nutrientes como as couves, de que é exemplo a Penca-da-Póvoa (de Varzim), aqui cultivada no concelho de Sintra.

"Empalhamento” do solo na horta com corte de relva e algumas folhas do jardim, em cama alta com acelgas da época anterior, e couves "Pencas” e alfaces da nova plantação. Ao lado uma cama (camalhão ou leira) ainda não coberta".

Este é um bom exemplo dum fertilizante barato e ecológico, um alimento para o solo (e seus habitantes escondidos) e para a planta.

E é sempre bom ter presente que, numa horta, um solo fértil é um solo vivo e com muito mais vida do que nós imaginamos.

É preciso mesmo muita imaginação para imaginar uma população de macro, meso e micro organismos (mais estes que não conseguimos ver sem microscópio mas que lá estão) superior à população humana no planeta, numa mão cheia de terra – 7.000 milhões de seres vivos!!!

E esta população também come e por isso nós devemos ajudar para que também eles não passem fome, deixando os restos das culturas na terra e adicionando outros restos (de plantas ou de animais).

E como todo o ecossistema está muito bem feito, esses milhões de organismos decompositores não comem plantas vivas, o que permite tê-los no solo a ajudar as plantas cultivadas a crescer de forma equilibrada e saudável.

É o que acontece com as minhocas que muito ganham com estas restituições orgânicas ao solo e muito contribuem para a fertilidade deste e para o crescimento vegetal.