É viciada/o em pão, bolachas ou massas? Venha conhecer umas das possíveis causas para esta tendência

Alimentação Se você anda com muito desejo por massas, pães e bolachas, nós podemos saber a causa. Vem entender mais sobre o assunto.
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O dia não está a correr bem. Subitamente, a ideia de comer um pouco de pão, bolachas ou massa surge-nos como o consolo ideal.  

Quando o desconsolo começa a aparecer,  o seu primeiro pensamento é aquele pacote de bolachas ou pão que tem no armário? Tem dias em que um croissant, um muffin, um prato de massa, uma pizza ou outro alimento feito com trigo lhe parecem a solução perfeita para o alívio temporário do que quer que esteja a sentir?

Depois de uma consulta médica ou de nutrição, a sugestão de deixar de comer trigo o fez pensar "como é que eu vou viver sem trigo”? Conhece alguém dentro do espectro do autismo? Se respondeu sim a alguma destas questões, este artigo é mesmo para si.  

A visão simplista dos alimentos como simples fornecedores de calorias e nutrientes já há muito que foi ultrapassada pelos diferentes avanços científicos.

Os alimentos que consumimos influenciam as hormonas que produzimos, a forma como os nossos genes se expressam e claro, o funcionamento do nosso cérebro. Já tínhamos referido que o que comemos influencia o funcionamento do nosso cérebro. E o nosso cérebro influencia as nossas escolhas e desejos alimentares.

Alguns dos nossos desejos alimentares não são "mania”, mas sim um reflexo de alterações metabólicas ou fisiológicas específicas.

Não estamos a referir-nos a um  simples "gostava de comer aquele alimento” mas sim de um "eu tenho mesmo que comer aquele alimento.”

A nossa consciência diz-nos que devemos fazer a escolha mais correta, e tentamos compensar o nosso forte desejo com um substituto.

Mas quem já sentiu esta necessidade sabe perfeitamente que este substituto não vai colmatar a necessidade do alimento que realmente queríamos… e muitos de nós não descansa enquanto não conseguir ingeri-lo.

Os motivos para esta necessidade alimentar são diversos. Alguns envolvem emoções, outros envolvem hormonas e outros deficiências nutricionais. Hoje vamos falar de um motivo muito comum: as gluteomorfinas.

Como já tínhamos explicado anteriormente aqui, a digestão incompleta do glúten pode condicionar a formação de gluteomorfinas.

As gluteomorfinas, caso sejam absorvidas para a corrente sanguínea podem ativar recetores opióides a nível cerebral. Estes são os mesmos tipo de recetores que são ativados pelas endorfinas, também elas são compostos opióides, que nos dão uma sensação de prazer.

É devido às endorfinas que nos sentimos muito bem e com uma sensação de felicidade após a prática de exercício físico, em especial o exercício físico mais intenso, como a corrida.

Alguns de nós já descobriram a sensação de prazer obtido após uma corrida ou outro exercício físico intenso, e quando as coisas não correm bem, esta é a fuga perfeita. Outros ficaram "presos” ao prazer obtido mediante o consumo de alimentos com glúten.
 
Esta situação é mais intensa em determinadas pessoas e isso pode depender do grau de permeabilidade intestinal e do tipo de gluteomorfina produzida. Numa situação normal, o nosso intestino tem uma permeabilidade seletiva, ou seja, só deixa entrar moléculas criteriosamente selecionadas.

Mas por diferentes razões, esta permeabilidade intestinal pode estar alterada, ocorrendo a entrada de compostos que numa situação normal não entrariam de todo ou entrariam apenas em pequenas quantidades, como é o caso das gluteomorfinas.

Gluteomorfinas e autismo

O caso mais extremo do efeito das gluteomorfinas no cérebro ocorre numa grande percentagem de crianças com autismo.

Os primeiros estudos comparativos entre o comportamento autista (mais ausente, "mais desligados do mundo” e insensibilidade à dor) e o efeito opióide datam de 1979.

E desde aí têm sido publicados diferentes artigos que referem a presença de gluteomorfinas na urina das crianças com autismo, e o papel das gluteomorfinas no seu comportamento, como estes artigos assumem (aqui, aqui e aqui).

Nestas crianças pode ser bem flagrante o efeito aditivo deste alimentos: algumas destas crianças têm uma fixação enorme por alimentos com glúten (como pão, bolachas e massa) e recusam outros alimentos.

As flutuações no seu comportamento revelam também este efeito aditivo: após o consumo de alimentos com glúten estão calmas e ausentes, e quando o efeito começa a passar, ficam extremamente agitadas e com uma necessidade enorme de voltar a consumir alimentos com glúten.

Também pode ocorrer a formação de compostos opióides nesta crianças com o consumo de lácteos, nomeadamente a partir da caseína, que é uma das proteínas lácteas.

Este é um dos motivos para a implementação de uma dieta sem glúten e sem caseína no tratamento do autismo, e que tem demonstrado inúmeros efeitos benéficos numa grande percentagem das crianças.

É importante mencionar que o autismo é um espectro, e uma doença multifactorial, pelo que dificilmente irá existir uma medida ou tratamento que resulte em todas as crianças. A dieta sem glúten, sem caseína e sem soja tem resultados benéficos em mais de 50% das crianças.