Deixem Falar as Pedras, de David Machado

Sustentabilidade David Machado, que escreveu o livro deixem falar as pedras, esplica-nos como são as histórias o que de mais importantente nós temos, venha ver isso e muito mais aqui.
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Faz parte do bom senso saber-se que a realidade nunca é exatamente como nós a julgamos.

Da mesma forma, e até há pouco mais de dois séculos, era invulgar aceitar-se pensar-se que a ciência e o positivismo científico poderiam ser considerados em si uma forma real de conhecimento; afinal de contas, eram só dados, só experiências, não é conhecimento verdadeiro, dizia-se.

Se o homem e o se divino não estavam envolvidos nesse saber, ele não era verdadeiramente um saber.

E era também natural que a realidade fosse algo que ultrapassava o nosso entendimento das coisas, não havendo a necessidades de se perceber essa ilusão que hoje chamamos factos, ou realidade.

Hoje em dia as coisas mudaram um pouco e todos se esquecem − facto real mas não bom senso – que aquilo que estudamos é tão irreal como tudo o resto.

Se nem sequer as ciências denominadas de exatas o são − e quando tal se denominam é pela sua natureza e não pelo «exato» conhecimento que temos delas – quanto mais aquilo que conhecimento social, experiencial.

No fundo, é como a Verdade. Ela até pode existir mas é para nós impossível de alcançá-la.

No livro de David Machado, «Deixem Falar as Pedras» vemos como esse processo se realiza. Este é um livro sobre essa mesma irrealidade dos factos, sobre a construção de conhecimentos e memórias.

Como algo é e, em simultâneo, pode não ser. Como a verdade de um está desfasada da realidade do outro e como sempre a nossa «história» é apenas uma construção interpretada daquilo que julgamos que nos aconteceu e de como isso afetou toda a nossa vida.

E podem crer que muito aconteceu ao Nicolau, o avô da personagem principal desta história.

Livro passado na história recente de Portugal, mais exatamente no período que medeia entre a guerra civil espanhola e aos democráticos tempos atuais.

Aqui acompanhamos a tentativa que o neto, Valdemar, faz para reconstruir a vida mirabolante do seu avô, na tentativa de tentar salvar a sua vida de uma morte anódina, condenado à fixação perpétua por telenovelas.

Pelo desligamento do mundo, pela desistência da vida, enquanto ele mesmo tenta dar um rumo a sua vida de adolescente numa fase crucial da vida, após ter tido graves complicações no liceu devido ao seu mau comportamento.

Com este livro vemos que mais do que os conhecimentos que adquirimos na escola, David Machado explica-nos como são as histórias o que de mais importante nós temos.

De como necessitamos de histórias para nos preencher a vida, para enquadrarmos o que somos nesta sociedade complexa, como ferramenta de base para nos conhecermos e sabermos o que temos de ser e de fazer.

E também de como somos parte ativa na construção daquilo que somos e aquilo que fazemos, de como a nossa realidade se transforma numa ficção a partir do momento em que já a vivenciamos e tratamos de a enquadrar na nossa memória.

Se a nossa vida dava um filme, no fundo já deu, o filme que criamos da nossa própria vida. Uma obra imperdível da nova literatura portuguesa.