As brássicas – culturas de ontem de hoje e de amanhã

Sustentabilidade Entenda o que é e como cultivar as brássicas, uma família de legumes essenciais para a saúde humana.
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O cultivo e consumo de couves e outras brassicáceas remonta a tempos pré-históricos, há cerca de 4.000 anos a.C.

Na Europa foram os celtas os principais disseminadores destas culturas hortícolas, tendo até o nome celta (bresic) dado origem à palavra romana que se vulgarizou mais tarde (brassica). No Minho o nome vernáculo "berça” tem também origem no termo celta.

A família das brassicáceas (ou crucíferas), tem pelo menos 22 espécies cultivadas pertencentes a 14 géneros botânicos, sendo as mais importantes as do género

Brassica:

  • Brassica napus variedade napobrassica: rutabaga;
  • Brassica napus var. napus: couve-nabo;
  • Brassica nigra: mostarda-negra;
  • Brassica oleracea var. acephala: couve de folhas / couve-galega;
  • Brassica oleracea var. botrytis: couve-flor;
  • Brassica oleracea var.capitata: couve-repolho, couve-roxa;
  • Brassica oleracea var. costata: couve-penca, couve-tronchuda, couve-portuguesa;
  • Brassica oleracea var. gemmifera: couve-de-Bruxelas;
  • Brassica oleracea var.gongylodes: couve-rábano;
  • Brassica oleracea var. italica: couve-brócolo;
  • Brassica oleracea var. sabauda: couve-lombarda, couve-de-sabóia, couve-de-milão;
  • Brassica rapa var. rapa: nabo, nabiça, nabo-greleiro.

Em Portugal estas culturas têm uma grande tradição e os agricultores mais antigos tiveram o cuidado de preservar as melhores variedades, guardando as melhores sementes.

É o caso das couves tronchudas ou pencas, como a Penca-da-Póvoa e a Penca-de-Chaves, ou a menos conhecida Penca-de-Mirandela.

Das duas primeiras ainda se vai encontrando semente à venda com alguma facilidade, tal como da variedade Beira, de couve-portuguesa.

 Couves pencas ou tronchudas – Penca-da-Póvoa e Penca-de-Chaves, em viveiro biológico (Sintra, Outubro 2014).

Dos nabos também há muito cultivo em Portugal, quer para consumo dos grelos (nabo greleiro), das folhas (nabiça) ou da raiz (nabo-roxo, nabo-de-São Cosme).

As brassicáceas e em especial as couves, são culturas exigentes em azoto e em potássio, pelo que devem ser cultivadas em rotação com outras culturas menos exigentes nestes nutrientes, como as leguminosas fixadoras de azoto (fava, ervilhas, feijões), as alfaces, ou as cebolas e alhos.

Horta biológica com couve-repolho em rotação com alho-francês, alfaces e outros legumes (Benavente, Quinta de Santo Estêvão, Outubro 2014)

Como se tratam de culturas exigentes em nutrientes, convém fazer uma abundante fertilização orgânica, sem incluir os estrumes de animais (frangos, galinhas ou porcos) de pecuárias intensivas sem terra.

Caso não se consiga um estrume de qualidade, ou não haja composto suficiente na horta, comprar um fertilizante orgânico granulado, feito à base de estrume de ovelha e que contenha pelo menos 2% de azoto.

Completar se necessário com adubo mineral à base de sulfato de potássio e magnésio de origem natural.

Um fertilizante mais barato é o corte de relva, ainda que seja grama de jardim, pois a folha da erva é rica em azoto e não tem sementes se for cortada regularmente.

Pode enterrar-se ou colocar sobre a terra em "mulching”. Para fornecer minerais, principalmente cálcio e potássio, a cinza de lenha (madeira não tratada) é um bom adubo (até 50g/m2)

Para a proteção fitossanitária e enquanto o frio não elimina as pragas, há que combater principalmente as lagartas e os caracóis e lesmas, com os seguintes produtos autorizados em agricultura biológica:

Bacillus thuringiensis (Turex, Bactil, Sequra, ou outro homologado), pulverizado em mistura com leite e água (100g de Turex + 1l de leite + 100l de água), para todas as espécies de lagartas de borboleta, como a lagarta verde e a rosca;

Fosfato de ferro (Ferramol), aplicado em grânulos no solo à volta das culturas (1Kg/1.000m2), para combater caracóis e lesmas.

Para estes moluscos a cinza de lenha colocada sobre a terra também é eficaz enquanto estiver seca.

Para terminar é de referir dois aspetos que relacionam as práticas de cultivo com a qualidade alimentar:

A forte tendência a acumular nitratos no caso das couves, leva a que o excesso de adubação azotada leve a excesso de nitratos nas folhas;

O ataque de pragas (insetos) e de doenças (fungos), principalmente quando o cultivo é fora da época mais adequada (Outono/Inverno), aumenta o número de tratamentos fitossanitários e o risco de resíduos de pesticidas, incluindo alguns cancerígenos como o mancozebe (fungicida ditiocarbamato).

O cultivo em agricultura biológica, desde que bem feito, previne estes dois problemas e permite uma qualidade sanitária superior.