A produtividade e o custo da agricultura biológica

Sustentabilidade Saiba mais sobre os resultados da agricultura biológica, rendimentos econômicos e qualidades dos produtos.
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Em Agricultura Biológica (AB) a produtividade pode aproximar-se da produção convencional, embora os riscos de perdas de produções no campo em geral aumentem, pois os fatores de produção disponíveis são em muito menor número, nomeadamente no maneio das ervas (sem herbicidas), das pragas e doenças (muito poucos inseticidas e fungicidas autorizados em AB na UE e homologados em Portugal).

Quanto aos custos de produção, nalgumas culturas como a cenoura e a batata, o consumo de mão-de-obra (nos dois casos não incluindo a colheita) é, respetivamente, três vezes e meia e duas vezes e meia superior ao das mesmas culturas com métodos convencionais.

O acréscimo de mão-de-obra deve-se principalmente à interdição de muitos dos pesticidas utilizados na agricultura convencional, o que implica uma maior prevenção dos inimigos das culturas (pragas, doenças e ervas infestantes) e um combate por meios não químicos, com utilização de mais mão-de-obra e equipamento específico.

Num trabalho com tomate em estufa, realizado no Centro de Experimentação Hortofrutícola do Patacão da DRAPALG, obteve-se uma produção comercializável nas duas variedades mais produtivas (Viriato e Zinac), respetivamente 9,6kg/m2 e 9,3kg/m2, o que representa uma produtividade média de 94.500kg/ha.

Considerou-se um preço médio ao produtor de 0,77€/kg (valor médio do preço de venda do tomate produzido em AB ao longo do ciclo produtivo nesse ano), obtido em função da produção registada nas diferentes fases do ciclo.

A cultura teve como Despesas de exploração efetivas (DEE), 39.924€/ha, correspondentes a despesas referentes à fertilização de fundo e de cobertura, montagem do sistema de rega, plantação, podas e desfolhas, tutoragem, tratamentos fitossanitários, regas, colheitas, amortizações, gastos gerais, e remuneração do empresário.

Este valor corresponde a um custo base de 0,40 €/kg, para uma produção de 94.500kg/ha.

Nas componentes das DEE atrás referidas, deveremos destacar como principais responsáveis pelo valor obtido, as despesas com a mão-de-obra da colheita (0,08€/kg), as despesas com as amortizações, referentes às máquinas, sistema de rega, eletrobomba, plástico e sua colocação, solarização do solo e estrutura dos abrigos (0,12€/kg), e as despesas com os tratamentos fitossanitários – produtos e aplicação (0,07€/kg).

Estas 3 componentes da despesa representam 66,6% do custo base.

O custo completo (custo efetivo + juros + reservas para riscos) foi de 42.627€/ha, correspondendo a um custo de 0,45€/kg, tendo também em conta a produção de referência por hectare.

O valor médio do preço de venda do tomate (0,77€/kg), foi superior ao valor do custo base (0,40€/kg), tendo-se obtido um resultado líquido de 0,37€/kg.

Analisando a composição dos custos totais, a mão-de-obra representa 38,6% dos mesmos, o material e diversos 57,2% e a tração 4,2%.

Compõem a rubrica Material e diversos, o material propriamente dito que inclui os custos com os diversos fatores de produção, como, por exemplo, as plantas, os produtos utilizados na fertirrega, os produtos fitossanitários, a água de rega, entre outros; na parte dos diversos, estão incluídos os custos com as amortizações, os gastos gerais e a remuneração do empresário.  

São necessárias para este modo de produção cerca de 2,26 UTA/ha, sendo que 1 UTA (unidade de trabalho ano) são 1.920 horas de trabalho, ou seja, 240 dias.

Num caso de produção de tomate de indústria no Ribatejo, numa exploração com 4,3 hectares desta cultura, com uma produtividade de 83,5t/ha, o custo de produção foi de 0,096€/Kg.

Neste caso, para se obter um rendimento líquido de 1500 euros/ha, é necessário um rendimento bruto de 9541€/ha, o que só é possível com um preço na produção de 0,114€/Kg, ou seja 40% acima do preço convencional desse ano (0,081€/Kg, com subsídio incluído).  

No caso do tomate de indústria, para compensar o aumento de custos, a perda de produtividade e o risco acrescido de perdas de produção devidas a pragas, doenças ou ervas, parece-nos razoável um acréscimo de preço à produção de, no mínimo, 50%. 

No caso de algumas culturas hortícolas, os custos podem ser muito superiores aos da cultura convencional, principalmente aqueles com maiores problemas de ervas, onde a monda mecânica, térmica e/ou manual é mais cara que a monda química.

É o caso da cenoura, onde a monda é trabalhosa e, em grande parte, manual.

Nestas condições só com um preço à produção substancialmente superior é possível viabilizar economicamente a cultura. Há também um aumento dos custos de investimento em equipamento específico para a monda mecânica ou térmica na linha e na entrelinha.

A AB, ao ter menores impactes sobre o meio ambiente, ao defender uma produção agrícola mais próxima dos locais de consumo, irá certamente contribuir (para além da redução da produção de gases com efeito de estufa, por exemplo) para a redução de alguns custos que irão no futuro ter que ser assumidos pela agricultura convencional, que não poderão mais ser incluídos, única e simplesmente, sob o título de externalidades e posteriormente esquecidos.

A avaliação dos resultados da agricultura biológica deve integrar, não só os rendimentos económicos, mas também o impacte sobre o meio ambiente e a qualidade dos alimentos.