A produção tradicional nas hortas dos Açores – a abóbora “Mulher”

Alimentação Veja a importância da agricultura e o porquê é bom consumir alimentos naturais.
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Por terras de São Jorge reina a vaca e o queijo, mas ainda sobram terras para dar frutos e legumes, como a das fajãs, pedaços de terra à beira mar, pequenos oásis mais quentes e mais soalheiros do que o resto da ilha.

E são solos muito férteis, do melhor que há no país, por vezes com mais de 10% de húmus, coisa rara nos solos de Portugal continental.

Com solos assim, basta pôr a semente à terra e se ela for bem adaptada ao solo e ao clima, vai crescer bem e produzir muito fruto.

É o caso da abóbora açoriana que, com a ajuda das abelhas na polinização vai vingar e vai dar boa colheita.

É uma variedade que está bem adaptada à região e que, segundo as gentes dos Açores, é melhor que a abóbora Menina, mais cultivada no continente.

E curiosamente em São Jorge deram-lhe o nome de abóbora Mulher… É tão doce que se come de sobremesa assada no forno, com canela mas sem açúcar!

Este ano estão a sentir alguma falta de água, chuva que caiu demais no Inverno mas que depois de Abril se tornou demasiado escassa para o que é hábito nos Açores.

Também aqui se vão sentindo as alterações climáticas, que provavelmente vão obrigar os açorianos a regar as suas culturas, coisa que raramente fazem.

Nos Açores e em particular na ilha de São Jorge, a grande maioria dos solos agrícolas são pastagens permanentes de sequeiro (regadas apenas pela chuva), onde pastam vacas leiteiras (quase todas da raça Holstein Frisia), muito produtivas mas muito exigentes em comida.

Essa exigência alimentar associada à falta de chuva e, nalguns casos, ao excessivo número de animais, faz com que as pastagens não cheguem para alimentar tanto gado.

Assim, o agricultor acaba por recorrer a alimentos concentrados (rações) produzidos com milho e soja importados dos Estados Unidos, do Brasil e da Argentina, na maior parte grãos de variedades geneticamente modificadas e, mesmo assim, muito caras (mais de 40 cêntimos/Kg) em comparação com a produção de leite obtida.

E assim aumenta a dependência do exterior, diminui o rendimento dos agricultores e da região.

Acresce o facto de o leite ser pago a baixo preço ao agricultor (cerca de 22 cêntimos/litro), apesar de alta qualidade sanitária que é exigida para o fabrico do queijo de São Jorge, que é feito com leite cru.

Os agricultores só não desistem porque recebem subsídios públicos, mas esse dinheiro dos contribuintes não vai durar sempre.

Ao mesmo tempo essa excessiva produção animal levou ao abandono de culturas que são necessárias para alimentar diretamente as pessoas, como cereais, frutos e hortícolas.

Sobram as fajãs e os terrenos mais próximos dos aglomerados urbanos, com pequenas hortas para auto-consumo.

É altura de apostar menos na vaca e mais nos legumes, nos frutos e nos cereais.

A qualidade dos solos e as variedades e as práticas tradicionais que ainda restam, mostram que é possível produzir bem e em quantidade, este tipo de alimentos.

Associar a estas produções algumas práticas da agricultura biológica, como a rotação e consociação de culturas, a adubação verde, a compostagem, que podem ainda melhorar a qualidade alimentar e ambiental da agricultura açoriana.