A horta ao natural com variedades tradicionais

Sustentabilidade Entenda como cuidar do solo para manter uma horta com alta variedade de hortaliças.
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O "empalhamento” do solo com resíduos de origem vegetal (palha ou outros) tem vindo a ser substituído nas últimas décadas na agricultura comercial e até nalguma agricultura biológica.

Por cobertura plástica não biodegradável (a "paillage” feita a partir do petróleo) e, por vezes, plástico oxodegrável (um falso biodegradável que de degrada fisicamente em pequenas partículas que ficam no solo por muitos anos).

Mais recentemente começou a ser utilizado o plástico biodegradável, feito a partir de amido de milho, e que até já se fabrica em Portugal com a designação de "Agrobiofilm”.

Numa pequena horta faz mais sentido recorrermos aos resíduos vegetais, aqueles que tivermos mais à mão e que não estejam contaminados de maneira inaceitável:

  • Palha de cereais;
  • Corte de relva;
  • Folhas de árvores (de preferência as caducifólias,  pois algumas perenifólias como as resinosas não são tão adequadas em solos ácidos);
  • Borras de café, etc.

Quando dispusermos de mais do que um material podemos fazer o empalhamento por camadas sobrepostas, tendo o cuidado de colocar por baixo em contacto com a terra, o material que for mais rápido a decompor-se.

Assim para além das várias vantagens de proteção e conservação do solo, ainda vamos alimentar a planta.

Essa cobertura do solo pode ser colocada antes ou depois da plantação

No caso de culturas semeadas no local definitivo (e não transplantadas) como a cenoura, é melhor cobrir depois de a cultura ter nascido, ou então aplicar antes da emergência uma fina camada que não dificulte a germinação e crescimento inicial.

O "empalhamento” do solo foi feito já depois da plantação, à medida que ia havendo mais folhas das árvores caídas para aí colocar.

As variedades cultivadas no quintal biológico são preferencialmente as tradicionais e com prioridade às portuguesas

No caso das alfaces ainda temos um considerável número de variedades tradicionais, mas já escasso nas casas comerciais de sementes, que as têm vindo a substituir pelas híbridas.

No caso da Associação Colher para Semear - Rede Portuguesa de Variedades Tradicionais, que tem feito uma recolha nalgumas regiões do país, estão disponíveis para os associados cerca de 50 variedades de diferentes origens.

A "Orelha de mula”  foi conservada por alguns agricultores do planalto mirandês, é do tipo "Romana” e é das mais resistentes ao espigamento, ficando comestível durante largos períodos.

Tem "uma textura medianamente firme, estaladiça e de paladar muito delicado” de acordo com as informações do Catálogo de Variedades 2014 da referida associação.

O "Empalhamento” do solo na horta com folhas de árvores, com variedades tradicionais de alface cultivadas ao ar livre em pleno Inverno – ao centro a variedade "Orelha de mula” com origem em Vilar Seco, concelho de Vimioso.

Também do mesmo Catálogo da associação "Colher para Semear”, cujas sementes não podem ser vendidas mas apenas cultivadas pelos associados, vem uma descrição da variedade "Repolho do Cousso”, com origem no Alto Minho, concelho de Melgaço.

Esta alface é das de repolho, mas pouco fechado. Espiga mais facilmente que a anterior em especial nas épocas mais quentes e tem crescimento rápido em terra fértil e estação amena.

De textura fina "é com certeza das alfaces mais gostosas de entre as ensaiadas pela associação”.

Alface "Repolho do Cousso”, com origem no concelho de Melgaço, numa cama (camalhão ou leira)  só parcialmente coberta.

Ainda do mesmo Catálogo, embora de origem não nacional, temos a variedade italiana "Radicheta”, de folhas recortadas e ponteagudas e bem adaptada quer ao frio quer ao calor.

Pode por isso ser cultivada ao longo de todo o ano e colhida progressivamente por corte das folhas.

"A textura é fina e de sabor delicado”, como também já pudemos comprovar.

Alface "Radicheta”, de origem italiana, em solo coberto com folhas de glicínea.

Para concluir por agora as variedades de alface, não posso deixar de referir a que cultivo há mais tempo - a "Maravilha das Quatro Estações” - uma alface que tal como o nome indica, também está adaptada a todas as épocas do ano.

A semente dela é ainda fácil de comprar, pois há várias empresas de sementes que a comercializam, quer em Portugal quer no estrangeiro.

Alface "Maravilha das Quatro Estações”, em solo coberto com folhas de olaia.

É de textura fina e delicada, de sabor agradável, mas pouco apetecida pelos pardais.

Foi também esta uma das razões porque passei a cultivar menos alfaces de cor exclusivamente verde, que muitas vezes serviam de alimentos aos pássaros antes de ser possível a sua colheita.