A agricultura biológica- uma resposta à crise

Sustentabilidade Estudos falam sobre conclusões muito preocupantes, em relação ao impacto do sistema agrícola e alimentar dominante.
Você vai ler:

1. A Agricultura convencional e a crise económica e ambiental à escala global

Dois estudos recentes, um da Comissão europeia e outro do Governo inglês, citados por Cristóvão (2011), apresentam conclusões claras e muito preocupantes, quanto ao impacto do sistema agrícola e alimentar dominante:

  • Tem contribuído para as mudanças climáticas, produzindo gases com efeito de estufa e outros poluentes;
  • Está largamente dependente da energia fóssil (adubos em especial o azoto, máquinas agrícolas, transportes);
  • É fortemente consumidor de água potável;
  • É fortemente consumidor das reservas mundiais de potássio e fósforo (fabrico de adubos), que se aproximam do esgotamento;
  • Tem conduzido à perda de solos aráveis e de fertilidade dos mesmos;
  • Tem causado a erosão da biodiversidade (perda de variedades vegetais e de raças animais);
  • Tem produzido riscos para a saúde (pesticidas, antibióticos, nitratos);
  • Tem gerado assimetrias sociais e territoriais;
  • Tem vindo a baixar os rendimentos dos agricultores (maiores custos de produção, menores preços à produção, maiores margens na distribuição).

A facilidade de transporte de bens alimentares e de fatores de produção, nos últimos 40 anos, suportados pela utilização do petróleo, enquanto recurso energético de baixo custo, promoveram alterações profundas nos sistemas agrários. Os alimentos que atualmente se adquirem viajam em média, entre 2.500 e 5.000 km.

A distância média entre a quinta e a loja aumentou cerca de 20% entre 1980 e 2001 e a grande maioria destes alimentos é refrigerada para ser transportada (Rubin,2009). Para além do forte impacto ambiental, isto contribui para uma maior diferença entre o preço pago ao produtor e o preço de venda ao público.

O aumento significativo de produção, associado a alta tecnologia e assente na implantação de sistemas de monoculturas com consumo exagerado de energia, retirou à agricultura o benefício que está na base da sua existência, isto é, um balanço energético positivo só possível com a fotossíntese que retira, sem custos, a energia do sol para os alimentos.

Nos sistemas agrícolas industrializados, por cada caloria produzida num alimento são consumidas 7,3 calorias. A energia gasta inclui os amanhos culturais, o transporte, o embalamento, o armazenamento, etc. Já a energia gasta em fertilizantes e pesticidas, corresponde a 18,36% do total.

A separação das produções animal e agrícola nas explorações foi seguramente uma das causas mais relevantes para a perda da eficiência energética dos sistemas agrícolas.

Sabia que? 

Os nossos antepassados utilizavam melhor a fotossíntese, pois gastavam apenas 1 unidade energética para produzirem 3.

2. A resposta da agricultura biológica

Será que a agricultura biológica (AB) pode contribuir para uma maior soberania alimentar e ter capacidade para alimentar o Mundo?

A Conferência da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) sobre AB e segurança alimentar, realizada em Roma em 2007, concluiu o seguinte, com base num estudo científico realizado a nível internacional e coordenado por Catherine Badgley (2007), da Universidade de Michigan:

  • A agricultura biológica pode alimentar todo o planeta e sem impacto negativo no ambiente;
  • A agricultura biológica pode limitar,consideravelmente, o problema do aquecimento global e das alterações climáticas.

Estas conclusões resultaram de 293 exemplos no mundo estudados de forma comparativa, sendo que em média, a produção biológica foi 132% da produção convencional (produção vegetal e animal), ou seja mais 32%.

Nos países desenvolvidos, com 160 casos, a produção biológica foi 92% da convencional (Bio vegetal = 91%; Bio animal = 97%), ou seja, 8% inferior. No entanto, nos países em desenvolvimento, com133 casos estudados, a produção biológica foi 180% da convencional (Bio vegetal = 174%; Bio animal = 269%), ou seja,80% superior.

Em 2009, o Relatório da Agricultura mundial (IAASTD Report), elaborado por 400 cientistas, para as Nações Unidas e para o Banco Mundial, procurou responder à questão de como alimentar de maneira sustentável, saudável e justa, a crescente população mundial, até ao ano de 2050.

Eles chegaram à conclusão de que "business as usual” (agronegócio atual) não é uma opção. No longo prazo só será possível alimentar adequada e saudavelmente a população do planeta se pararmos a sobre-exploração dos solos, e a destruição das florestas e de outros ecossistemas para a produção alimentar. Em alternativa, devemos intensificar a agricultura biológica, mas respeitando e trabalhando com a Natureza.

A capacidade de alimentar toda a população mundial, segundo as práticas da AB, passa por uma estratégia de produção que se resume a uma nova palavra, a eco-intensificação.